SELEÇÃO DE POEMAS DE PAULO EIRÓ

O SOBRADO

Do céu à luz decadente
Contemplai esse sobrado
Que na face do presente
Lança o escárnio do passado:
Seu vulto negro ali está,
Nas trevas nódoa mais densa
Como sacrílega ofensa
Em alma perdida já.

Ei-lo! É no térreo degredo
Moço poeta a cismar,
Imóvel, como o penedo
Que escuta as vozes do mar.
Ei-lo aí! Dilacerado
Livro que o aquilão abriu,
E os segredos do passado
Aos meus olhos descobriu.

Esse teto quantos sonhos
Não abrigou de ventura!
Ai! quantos votos risonhos
Hoje o vento inda murmura!
Tristeza aqui não sentis?
Nestas lôbregas paredes
Tocante história não ledes
De alguma época feliz?

Apagou-lhe os caracteres
O tempo no andar veloz,
Imagem desses prazeres
Que deixam remorso após.
Passaste, oh quadra de amores,
Como o fumo em espiral,
E, perdendo tuas flores,
Secaste, pobre rosal.

Como em uma alma abatida
Por paterna maldição,
No que foi templo de vida
Hoje impera a solidão.
Aqui, a lira inquieta
Furta-se aos cantos de amor,
Embarga a voz do poeta
Um acréscimo de dor.

O homem sonha monumentos
E só ruínas semeia,
Para pousada dos ventos;
Como os palácios de areia
Dos seus brincos infantis,
Mal divisa o que apetece,
Que tudo se desvanece…
Feliz quem amou! Feliz!

VINGANÇA

Desejaste, infeliz, que fosse a terra
Leilão em que apreçasses teu pudor;
Preferiste a opulência a um nome puro,
E requebros a amor.

Fizeste muito bem! Corre, ali passa
O mundo, vai pedir-lhe um grão de incenso;
Sorrindo, abre-lhe as mãos, delas arranca
Salário que não venço.

Punir-te saberei! Alma como… outras,
Crês talvez que, importuno, vou seguir
Teus passos, e da ofensa, do desprezo
O fel retribuir.

O bardo não se vinga por tal modo,
Nem te quer ao teu ídolo arrancar.
Adeus! Que a tua sombra jamais venha
Meu coração tentar.

Não me quiseste partilhar a vida,
Pois vai-te, vende a tua mocidade:
Sozinho morrerei, mas de meus louros
Não terás a metade.

Íntima voz que imperiosa brada
Não é voz fraudulenta e transitória;
Não! Nem sempre hás de tu, minha alma, embalde
Suspirar pela glória.

O futuro entrelaça-me a coroa
Que cinge do poeta a fronte ardente,
Palma que a morte, respeitando, torna
Mais verde e florescente.

Morra tua lembrança! Que meu canto
Não diga o que meu coração não diz,
Nem se veja o teu nome a par dos nomes
De Laura e Beatriz.

Esquecimento, eterno esquecimento
Te corroa a existência amargurada!
No mundo o vilipêndio, e, no jazigo,
Poeira desprezada.

São Paulo, Junho de 1854.

PIRILAMPO

Pirilampo vagabundo,
Almenara do verão,
És como a chama encoberta
De um sensível coração:
Às vezes, do horror das trevas
Rompe súbito clarão.

Se na guaxima orvalhada
Reluzes, pequeno inseto,
Se, cortando manso os ares,
Te dependuras de um teto,
Quem a teu medroso brilho
Consagra um pouco de afeto?

Mas, se a noite fosse clara,
De que valia teu dote?
Não foste acaso criado
Para ser aéreo archote?
Deixa, pois, que o fogo humilde
Do seio da noite brote!

Silêncio também, mancebo,
Que tens da lira o condão!
Sufoca a febre insensata
Que te lavra o coração.
Quanto mais profunda a noite,
Maior será teu clarão.

AMOR!

Amor! oh sol matutino,
Surges de um leito de anil
E vens dardejar a pino
Sobre a idade juvenil.
Quando rasgas, violento,
As nuvens do firmamento,
Fulge o céu, recende o ar,
O oceano se aquieta;
Só um olhar de poeta
Pode sofrer teu olhar.

Reina, oh pai da natureza,
Chamejante serafim,
Perlustra co’a tocha acesa
Teu nobre império sem fim,
Cobre a vida de esplendores
E a sepultura de flores;
Sê ocaso do ancião,
Aurora da juventude,
Corda de todo alaúde,
Voz de todo coração.

Tinge as faces da donzela
Com as cores do pudor,
Quando ouvir dizer que é bela
E que beleza é amor.
Acende os olhos da esposa
Lentejados como a rosa
Pelo orvalho do prazer,
Que exprimem: “Estamos juntos!
Se os nossos dias são muitos,
Como me sinto eu morrer?”

Rasga a cortina que prende
Níveo seio maternal,
Seio de onde um filho pende
Como abelha em boninal.
Apoia os trêmulos braços
Que a velhice ergue aos espaços,
De onde chove todo o amor,
Dizendo: “Essa eterna herança
De caridade e esperança
Deixo-a na terra, Senhor!”

Mas, sobretudo, derrama
Teu cálix cheio de mel
Sobre o espírito de chama
Que aviventa o menestrel.
O que és tu, e o que é a glória?
Esta sede de memória
Não procede, amor, de ti?
Sim, porque nossa ternura
Quer, além da sepultura,
Seus puros sonhos daqui.

PAZ NA VIDA

(À Maria Seraphina).

Minha irmã — na vida curta
Teremos cipreste ou murta
A engrinaldar-nos a frente?
Nosso luzeiro encantado
Nos mares tem-se apagado,
Ou inda luz no oriente?

Nos lábios, frouxo e indeciso,
Pode nascer um sorriso?
Ou então longo suspiro?
Quebra-se a dor no bulício
Ou lhe será mais propício
O silêncio do retiro?

Feliz quem não tem desejos
E em cuidados benfazejos
Não sente gastar-se a idade!
Chamem-no embora de louco:
Pouco tem, mas esse pouco
Se chama felicidade.

O que, pois, nos arrebata,
Como ruidosa cascata
De pedra em pedra saltando?
E nosso ardor inquieto
Por quanto é longe e secreto,
Que às mãos se nos vai furtando.

Paz! E será a existência,
Como a tua, pura essência
Que áurea redoma vapora;
Quando a essência for perdida,
Quem há de pedir que a vida
Se lhe estenda mais uma hora?

Tua vida é brando afago
Da aragem travessa em lago
Que balança levemente,
Sem conhecer a procela;
Santa paz é tua estrela,
Refulgindo no oriente.

Paz — angélico alimento
De almas puras, sentimento
Que peçonha não dimana,
Casto e doce como um beijo
Em que não lavra o desejo
— Como os teus, oh minha mana!

Nos campos da vida, ufanos,
Possam correr os teus anos!
Nos seixinhos da corrente,
Sem saudades e sem mágoas,
Possas ver as frescas águas
Sussurrarem brandamente!

S. P., Agosto 31 de 1854.

ADEUS

Adeus, oh terra querida,
Em que me sorri à vida,
Quando a vida me sorriu!
Adeus, meu horto de flores,
Que me perfumaste as dores,
Quando a dor me descobriu!

Val que foi meu universo,
Em que vejo inda disperso
Róseo festão do prazer,
Adeus! viver não me é dado
Neste clima afortunado;
Possa ao menos cá morrer!

Adeus! Virá a primavera
Tornar mais cerúlea a esfera,
O ambiente embalsamar;
O sol terá mais fulgores,
Mais venturosos amores
Hão de sorrir ao luar!

Sereis, árvores, ornadas
De folhas mais delicadas
Que as louçainhas de um rei;
Terá a brisa mais afagos,
Serão mais claros os lagos,
E eu nada disso verei!

Adeus! De ti exilado,
Serás um sonho dourado
Que dilate o coração,
Delícias vindas de um Éden,
Riquezas que não se medem
Pelas que almeja a ambição.

Serás a minha sereia
Que a distância aformoseia,
Cantando às vagas azuis
Melodiosa, agra queixa,
Fraca a voz, solta a madeixa,
Entre vórtices de luz.

Ah! nunca te vi tão bela!
Nem que foras como a vela
Que o náufrago avista além,
Manhã tanta vez chamada
Que enfim aclara a morada
Do enfermo que mãe não tem.

Adeus! Éden, sonhos lindos,
Alva ou sereia, bem-vindos
Serão os pensares teus.
Entre nós o que medeia,
Se vives na minha ideia?
Adeus, cara pátria, adeus!

Lágrimas

Minhas lágrimas, correi,
Gotejai no árido chão!
Tintas de sangue, rompei
Das fendas do coração!

Corre amargoso, meu pranto!
Não te enxugue mão de amigo;
Pudesses tu correr tanto,
Que as dores fossem contigo!

Se lágrimas não verter,
Que será feito de mim?
Hei de à míngua perecer,
Como, sem água, o jasmim.

Mas tua corrente mansa
Borbulhe com dignidade,
Como um pranto de esperança,
Como um choro de saudade.

Corre como, de manhã,
O orvalho fresco do céu
Pinga da figueira anã
Sobre tosco mausoléu,

E não qual fluida neve
Descendo do leito alpestre;
Chora como um anjo deve
Chorar no exílio terrestre.

O que seria o viver,
Se não houvesse chorar
As lágrimas do prazer,
As lágrimas do pesar!

Corta-te agora, meu pranto,
Recolham-se as doces vagas,
Guarde-se o bálsamo santo
Para mais profundas chagas.

AMOR E ESQUECIMENTO

Fatalidade! Um bárbaro destino
Meu tão curto viver de trevas enche!
Já no celeste livro está lavrado
O aresto irrevogável!

Tu, força que no peito latejavas,
Seiva divina que à profunda chaga
Os lábios me soldava, para sempre
Serás amortecida.

Tu, braço que te erguias para o Eterno,
Como oração a desviar coriscos,
Penderás para a terra, sem valer-te
Nem orgulho, nem crença.

Que é feito dos troféus de glória, vate?
Onde param os louros sempre verdes?
Caíste, gladiador, no pó do circo,
Prostrado antes da luta.

Soltarás neste mundo voz sem eco:
Como os da aurora boreal, os raios
Que te abrasam a fronte hão de extinguir-se
Em crepúsculo eterno.

E teus versos, poeta, murchas flores,
Que as únicas talvez foram da vida,
Irão desabrochar na vil cabeça
Da mediocridade.

Elisa, tu mal sabes que amargura
Derrama na alma aos filhos da harmonia
Só esta ideia de lançar ao nada
Lira, visões e mágoas!

Este pesar pungente quem o adoça?
O amor. Ama-me, pois, oh cara Elisa:
Seja este afeto estremecido e puro
Nossa imortalidade.

Se das flores de tua primavera
Fores lançar-me alguma sobre a campa,
Se conservares na alma cristalina
Minha saudosa imagem,

Eu dormirei o sono derradeiro
Entoando algum cântico amoroso:
Hei de zombar de ti, parto da morte,
Gelado esquecimento!

MORUMBI

No vaporoso horizonte,
Como te empinas, oh monte,
A ver se alcanças o céu!
Pretenderás, temerário,
Com teu cocar solitário,
Rasgar-lhe o dourado véu?

Oh pirâmide anilada,
Minha colina encantada,
És sempre como eu te quis?
Como um altar de perfumes,
Que a terra erigia aos numes,
Nos seus dias infantis?

Ergues teu cimo azulado
Dentre o círculo fechado
Dos outeiros, teus irmãos,
Como menina travessa
Levanta a airosa cabeça,
Sorrindo a seus cortesãos.

Quando a face o sol recosta
Nas curvas da serra oposta,
Para inda o mundo encarar,
Não se fixa em ti, montanha,
Com saudade tamanha
Seu amortecido olhar?

Como elevas tua frente
Serena! Às vezes, somente
Sobe, para te envolver,
A névoa da madrugada,
Como uma vela enfunada
Que o zéfiro faz correr.

Lá se foi, voltar não há de
A hora de felicidade
Que passei junto de ti:
Só na lembrança te afago,
Distante, saudoso e vago,
Meu celeste Morumbi.

(1855).

LAURA

Oh Laura, tu, cuja sombra
Vagueia inda hoje em Valchiusa,
Tu, que foste de Petrarca
Casta amante e doce musa;

Tu, que a seu gênio ignorado
Disseste: “Levanta-te! é hora!”;
Tu, que a lira emudecida
Fizeste acordar, sonora;

Esse vínculo odioso
Que abençoara o Senhor,
Não comparaste, tremendo,
A outro vínculo de amor?

Talvez muitas vezes, Laura,
Maldisseste o eterno muro
Que uma só alma partia;
Mas pensaste no futuro?

Se, nos braços do poeta,
Te despertaras um dia,
Foras, talvez, venturosa…
Mas Petrarca, ele, seria?

Laços ao gênio são morte,
Mesmo os laços da ventura;
Quer sonhar, correr, isento,
Desde o berço à sepultura.

Não chores, mísera Laura,
Perder tua mocidade:
Lira tiveste na terra,
Amarás na eternidade.

Como ardente labareda
Que os troncos lambe e devora,
O gênio mata igualmente
Quanto de terreno adora.

Seu viver está nos céus,
No infinito a que se lança;
Seu destino é, sim, amar,
Mas amar sem esperança.
O Peregrino

Sou peregrino — os vestígios
Sem conta do meu bordão
Atrás de mim se apagaram
No livro do coração;
Não guardo memória alguma,
Que fora guardar em vão.

A pedra, à beira da estrada,
Em que, suando, sentei,
No meu incessante giro
De novo não a verei,
E as flores que me sorriram
Nunca mais as colherei.

É que o sangue que esvaiu-se
Não pode tornar-me ao peito,
É que os meus viçosos sonhos
Me foram caindo a eito.
Oh calabouço de barro,
Quando te verei desfeito?

Insensível como a folha
Que o vento varre do chão,
Nada espero, nada temo,
Ninguém amo, ninguém, não!
Se alguma coisa hoje amasse,
Serias tu, meu bordão.

Tu, que nesta negra vida
Nunca me hás de abandonar,
Tu, que sustentas meus passos,
Tu, que me falas do lar,
Tu, que nunca me traíste,
Tu, que só me vês chorar.

Adeus! Pela última vez
Em ti, amigo, me inclino.
Separar-nos vai a morte,
Mas, desde já, te destino
Para indício, para cruz
Da cova do peregrino.

Ninguém

Vai, meia encoberta, a lua,
Vela absorta que flutua
Em mar trevoso e agitado.
Esse pórtico elevado
Abafa os astros fiéis,
Como o infante que, de enfado,
Desestima os ouropéis.

Ah destronada rainha!
Quando eras formosa, vinha
A terra em peso adorar-te:
Reina hoje por toda parte
Silêncio mortal… Ninguém!
Quem há de sorrir e amar-te?
Eu que aqui’stou só também.

Eu que, neste ermo infinito,
Lanço em torno o olhar aflito,
Para ver se encontro objeto
Em que empregue tanto afeto.
Mas quem a, pedir-m’o vem?
Sobre o meu jazigo abjeto
Quem irá chorar? Ninguém.

E vivo na terra a custo,
Como no areal o arbusto
Ou nos mares o penedo;
Dissiparem-se vi cedo
Os sonhos que alimentei.
Nem mais quero amar — hei medo
De achar o prêmio que achei.

Porque não fui entendido?
Porque nem ouço o ruído
Da fonte que aos mais sacia?
Para eles corre à porfia,
Só para mim é que não.
Pois que! Será poesia
O mesmo que solidão?

1854 — outubro, 4

ROSA SECA

Rosa seca e desfolhada,
Oferta de minha irmã,
Já não recendes no campo,
Já não te orvalha a manhã;

Mas terás propício asilo
Aqui, sobre o peito meu:
Secaste, rosa, que importa,
Se minha irmã te colheu!

Penhor tocante e sincero
Deste laço fraternal,
Viverás — que não dependes
De um afeto sensual.

Nem como dádiva falsa
Te hei de nunca desprezar;
Guardada serás, guardada
Como a relíquia no altar.

Tuas folhas delicadas
Deixaste, uma a uma, oh flor;
De meu sopro apaixonado
Te definhou o calor;

Mas podes bem consolar-te
De o teu ornato perder:
Quantos sonhos hei perdido
Que nunca mais hei de ter!

Se te viram entre a roxa
Saudade e o lírio florir,
Coloco-te em minha vida
Entre o passado e o porvir.

Despidos e solitários,
Vivamos juntos assim,
Como na dália se enlaça
Caricioso o jasmim.

Não tremerás, no pedúnculo,
Da brisa ao lascivo afã,
Mas a troco do meu pranto
Hás de ser meu talismã.

Véu Azul

Minha vista erra,
Desde o norte ao sul,
Nesse véu, da terra
Pavilhão azul.

Tinta que à safira
Até zelos dás,
De onde Deus te tira?
Que anjo te desfaz?

Véu de apartamento
Entre a terra e o céu,
Para o entendimento
És também um véu.

Nesse peristilo
Do paço imortal
Não terão asilo
Dor, fraqueza e mal.

A mim só não prende
Esse denso véu;
Bem minh’alma entende
Qual ser possa o céu.

Do augusto edifício
Pude os muros ver,
Sem o sacrifício
Da vida fazer.

Uma estrela quieta
Emprestou-me o olhar;
Pôde a humana vista
Tudo perscrutar.

Terra, como queres
Descrever o céu?
Que mar de prazeres
N’alma me correu!

Tesouros sem conta,
Brilho que a cegou,
Qual será? Não conta:
Viu e se calou.

Porém que lhe importa
Penetrar o véu?
Para a terra é morta
Des que viu o céu.

Nuvem negra em ondas
Sobe lá do sul.
Para! não me escondas
Esse véu azul.

VIOLETA

Vem, oh sócia do poeta,
Oh, minha casta violeta,
Emblema de oculto amor!
Com tua fragrância amena
Me suaviza e serena
Esta alma sempre em rumor.

Vem, oh flor! Porque te furtas?
Da vida as horas são curtas,
Se esvaem, filha de Deus,
Como novelos de espuma;
Vem, esconde-te e perfuma
Os últimos dias meus.

Esconder-te! — e que outro asilo
Mais carinhoso e tranquilo
Acharás, querida flor?
Pois teu roupão verde-escuro
Será mais belo, mais puro
Que o manto de nosso amor?

Perfumar! — ah nunca ou tarde
Acharás vaso que guarde
Teus aromas como aqui,
Nesta alma que te retrata
Como, sobre águas de prata,
Debruçada guarani.

Vem! Triste, na haste abatida,
Vegetarás toda a vida?
Murcharás na solidão?
Se te cercas de mistério,
Porque desprezas o império
Num profundo coração?

Não, oh não! Terei coragem;
Entre a mimosa folhagem
Nua te irei surpreender;
Teu cálix roçando apenas,
Beijar-te como as falenas,
De teus perfumes viver.

Que importa o mundo que clama,
Se revolve e se desama,
Como em acesso febril!
Foi ele quem deu-te as cores,
Quem te alimentou de amores,
Minha bonina gentil?

É da noite o orvalho frio,
Quando o dissemina o estio,
Que alento e vigor te dá;
Recama-te a lua as vestes
Com suas tintas celestes…
E o mundo? Que te dará?

Da solidão somos filhos!
Abranda estes duros trilhos,
Co’o perfume; dorme, flor!
Terás zéfiro em meu canto,
Terás orvalho em meu pranto,
Terás vida em meu amor.

DERRADEIRO VOTO

Brilha mais pura ainda, azul celeste!
Oh sol, junca de rosas o oriental
Sobre o túmulo meu, e a cinza quente,
Homem não se debruce, nem cipreste.

É-me doce o morrer! Do ermo terrestre
Basta já de pisar a areia ardente:
Que importa a vida a quem rasgada sente
Das castas ilusões a pulcra veste?

Antes, porém, Senhor, que eu volva ao nada,
Dá-me o que a ave te pede: mais um dia
Para entoar seu cântico à alvorada.

Virá, talvez, mais plácida a agonia,
Se eu tiver a cabeça reclinada
No teu seio divino, oh Poesia!

VOLTA A DEUS

Na aluvião do mundo arrebatado,
Oh lembrança de Deus, não te perdi!
Quando uma luz procuro no passado,
Essa luz vem de ti…

De ti, astro da fé, brando luzeiro
Multiplicado no espumoso mar;
De ti, que em minhas trevas um fagueiro
Raio sabes lançar.

A ti, só, deve o espírito inquieto
Esta sede sem fim de amor e paz,
Estas fundas tristezas sem objeto,
Que só Deus satisfaz.

Se de sonhos formosos se destouca
Minha cabeça ainda juvenil,
Que julgava possível (pobre louca!)
Da vida eterno o abril;

Se do pesar os dentes peçonhentos
(Serpe desta aprazível solidão),
Para perpetuar meus sofrimentos,
Poupam-me o coração,

Sigo, gemendo, na fatal voragem,
Sem à descrença levantar troféus;
Sombras não há, nem pérfida celagem,
Que me encubram os céus.

É lá que o Pai supremo vela e aguarda,
Braços abertos, riso sempre em flor,
O filho errante, que talvez não tarda
Ao convite do amor.

Não te apagues, faísca de esperança!
Aquece-me o engelhado coração,
Que em seu lento pulsar inda balança
Uma tíbia oração.

Um dia, pelos anjos incendida,
Hás de atear um ânimo fiel,
Que, nos exaustos cálices da vida,
Achou somente fel.

Esta orgulhosa inspiração mundana,
Que as crenças infantis veio toldar,
Como nuvem de incenso quando empana
As luzes de um altar,

Há de se esvaecer e o longo encanto
Deste mundo falaz que me seduz;
Contrito e nu, hei de tomar por manto
A penumbra da cruz.

Assim, quando o pampeiro sibilante
Das maretas azuis montanhas faz,
E da ressaca o rolo fumegante
Deixa as ribas atrás,

Alteroso baixel, soltando as velas,
Foge à terra almejada, e, no alto mar,
Onde reina o tumulto das procelas,
Vai, arfando, pairar,

Até que a luta dos bulcões fraqueia,
No céu puro reluz cerúlea cor,
E a vaga, apaziguada, a lisa areia
Oscula, com amor.

O sol brilha maior e esconde os lumes
Em nuvens arraiadas de carmim,
E nos ares, sutis, passam perfumes
De acácias, de jasmim;

Então singra o navio empavesado,
E, quando a noite desenrola o véu,
Lança ferros no porto, alumiado
Pelos faróis do céu!

COATINGA

Ah! meu suave regato!
Serpeando sem rumor,
Buscas te esconder no mato,
Como a alma cheia de amor.

Rola, rola, e não te queixes
De tua breve extensão:
Não são dourados teus peixes,
Bela a tua solidão?

Não tens águas veementes
Nos campos a se espraiar,
Nem, tragando mil torrentes,
Te precipitas no mar;

Nenhuma preclara Musa
Sedenta saciarás,
Como o nome de Valchiusa,
Nunca teu nome verás.

Que importa, arroio querido?
Nos claros remansos teus,
Se espelha o araçá florido,
Melhor se pintam os céus;

Neles, Véspero parece
Sobre a tarde adormecer,
Qual diamante que empece
Tua linfa de correr.

Como é poética e pura
De teu curso a duração,
Nestes lençóis de verdura,
Nesta amena solidão!

Meu destino vejo inteiro
Com o teu se assemelhar:
Corramos, pois, meu ribeiro,
Corramos sem murmurar.

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